De
1964 a
2010 passaram-se 46 anos. Quanta mudança de lá para cá: comportamental, social,
tecnológica, enfim. É difícil pensar a vida hoje sem celular, computador, banda
larga, controle remoto etc e tal. A mulher ganhou de vez o mercado de trabalho
e hoje cada vez mais ocupa postos de alto comando nas empresas brasileiras e
mundiais, fato pouco provável há cinquenta anos. O ganhador do prêmio Nobel de
medicina deste ano é Robert G. Edwards,
pelo desenvolvimento da Fertilização 'in vitro'.
A despeito das significativas
mudanças e do progresso eminente, há coisas, porém, que dificilmente mudam. Tal
é o caso do conservadorismo de parte da sociedade brasileira, a qual, ora dá
sinais de avanço, para em seguida deixar evidente todo seu moralismo
introjetado, muitas vezes travestido de hipocrisia.
Em 1964, a marcha da família
com Deus pela liberdade conclamada pela Igreja, por algumas entidades tais como
a União cívica feminina; Camde (campanha da mulher pela democracia) e
alavancada pelo deputado Antônio Bueno com apoio do governador de SP, Ademar de
Barros, contou com a participação de cerca de trezentas mil pessoas.
O objetivo último era a
derrubada do então presidente João Goulart (Jango), por suas supostas ligações
com o comunismo. As manchetes dos jornais da grande imprensa insistiam no fato
de que a sociedade clamava pela intervenção dos militares na substituição do
governante. Nas páginas iniciais do jornal ‘O globo’ de 19 de março de 64,
noticiava-se: “senhoras do Jardim Botânico reclamam...militares, o que vocês
estão esperando, que o Stalin venha sentar-se em Brasília?”
Deu no que deu. Sabemos que os
governos militares, travestidos de guardiões dos interesses da sociedade
brasileira, destituíram o presidente da República, afastando, assim, o suposto ‘perigo
vermelho ameaçador’, e, apesar do alardeado caráter provisório do ato, lá permaneceram
por longos 20 anos de nossa História política Republicana, parte significativa
dos quais, é bom lembrar, de suspensão das garantias constitucionais do cidadão
brasileiro.
Assim, quase 50 anos depois, a marcha da família com Deus está de
volta. Agora não mais para derrubar presidente e sim para eleger o seu. Numa
acusação alardeada pros quatro cantos de que a candidata Dilma Roussef seria
favorável ao aborto, vestindo-a, numa espécie de manto de Herodes da
modernidade, a marcha dessa vez veio com mouse. O último mês foi marcado por
uma enxurrada de e-mails e notícias nas redes sociais que denotam à candidata
citada o estigma de matadora de criancinhas, parafraseando o que disse a pretensa primeira dama, Mônica Serra.
Hipocrisias
à parte, o fato é que esse tipo de sensacionalismo ainda mexe com o imaginário
social brasileiro. A defesa da moral e dos bons costumes tão decantada na
década de 60 está mais presente que nunca. A Igreja, novamente, deu sua
contribuição para despertar os fantasmas. Parte pequena dela, a bem da verdade.
Porém, barulhenta e determinada. E a grande imprensa, como sempre, também vem
dando o seu quinhão de contribuição para reforçar os estigmas. Ela também tem
candidato próprio.
Entretanto,
assim como no passado, o sucesso da marcha e seus novos velhos articuladores têm
obtido êxito porque continuam explorando características do povo brasileiro que
a modernidade não conseguiu extirpar: o conservadorismo e o moralismo latentes.
Nos anos 60 éramos cerca de 70 milhões de brasileiros. Hoje, estamos na casa
dos quase 200 milhões. Mas a marcha empunhada de mouse tem atualmente acesso
maior às pessoas, haja vista que o Brasil está entre os países que mais acessam
a rede mundial de computadores.
Resta-nos
acreditar em algumas coisas. Primeiro, que a grande massa eleitoral não se
deixará iludir por conspirações tramadas de última hora nos bastidores
eleitoreiros. Segundo, a realidade deverá falar mais alto do que querem urdir
os articuladores da marcha de plantão, até porque, apesar dos avanços
tecnológicos, 25% dos brasileiros têm acesso à informática.
Dos
males, o menor. Pelo menos, não se cogita que os militares venham chamar pra si
novamente a responsabilidade de intervenção nos rumos políticos do país. Também
se espera que possamos continuar avançando rumo à cidadania plena. Retrocessos,
creiamos, não mais terão espaço em nossa conjuntura histórica. Oxalá! Assim
seja!
E
que Deus nos ajude e ilumine para que definitivamente crianças não morram mais
por aqui: por inanição, por maus tratos, por falta de atendimento médico, pelos
frutos da exclusão, pela hipocrisia da sociedade e pelo descaso dos próximos
governantes do país. Amém!









