Outro dia li no twitter de um jornalista, sobre uma cena
inimaginável hoje: a de um editor chefe de um jornal conspirar com militares por
telefone sobre o presidente da República. Pensei: que bom. Sinal dos tempos
democráticos que vivenciamos já há duas décadas.
Daí a parar para pensar em cenas e coisas inimagináveis
foi um pulo. A primeira coisa que me veio em mente, inclusive banhada com certo
saudosismo, foram as cartas. Que pena que a atual geração de adolescentes, em
sua maioria, sequer sabe o que é esperar o correio passar trazendo carta da
pessoa amada, de um amigo ou parente distante. E carta com cheiro então?
Imagino a dificuldade até em entender do que se trata... Só quem viveu sabe:
cheiros, suspiros e coração disparado. Não necessariamente nesta ordem.
A tecnologia trouxe a instantaneidade das informações:
e-mails, torpedos, msn e até o icq, que hoje também já é coisa do passado.
Obviamente que são inegáveis as conquistas dessa era digital. Mas, ao mesmo
tempo, ela trouxe também a falta de glamour escancarada, bem como a falta da
imprevisibilidade do efeito surpresa.
Alguém imaginaria hoje um estudante fazendo pesquisa na Barsa e transcrevendo-a em folha de
papel almaço? Nos anos 80, esse era o ápice da pesquisa que um estudante
secundarista poderia realizar. Mas essa enciclopédia era caríssima. Quem não
tinha, dependia da boa vontade do proprietário em deixar consultá-la, sob
vigilância ferrenha ‘para não estragar’.
E o que dizer das velhas fichas de orelhão, bem como as
intermináveis filas para utilizar do mesmo e conseguir fazer um contato
telefônico da rua? Nunca mais vi. Também pudera. Noticiaram outro dia que existem
mais aparelhos celulares do que brasileiros no Brasil.
Ahhh...e as bonequinhas de papel? Essas eram impagáveis.
Tinha de tudo quanto é tipo, formato e cores. E andar em várias papelarias para
procurar ‘roupinhas’ para elas também tinha seu encanto.
E o encantamento da infância e adolescência em muito se
ligava ao fato de ficar andando de bicicleta na rua até por volta das 23h. O
problema era quando alguém dizia: sua mãe está te procurando...Ih, sujou... A palmada
era certeira. Não por outro motivo a não ser pelo fato de ficar até tantas
horas na rua sem banho. Violência? Claro que preocupava. As mães das meninas
tinham pavor do tão temido tarado. E só.
Hoje, nenhuma mãe ou pai em sã consciência, deixaria o
filho andar de bicicleta sozinho à noite na rua. Talvez nem durante o
dia....vai que passe um psicopata de carro e queira fazer strike com os ciclistas né?


