Toda vez que a discussão sobre a
Lei de Gerson vem à tona em minhas aulas sobre Cidadania, me pego pensando se o
ex-jogador de futebol imaginava que ao fazer aquela famosa propaganda de
cigarro em 1976, a campanha alcançaria uma repercussão tão grande para além dos
propósitos do vício do fumo...
Gerson foi jogador da seleção
brasileira de futebol tricampeã em 1970. Como um dos poucos atletas
assumidamente viciado em nicotina, ele emprestaria sua imagem para um comercial
do cigarro Vila Rica, associando-o a um estilo de vida de quem é esperto e sabe
o que quer da vida.
A partir da expressão proferida
por ele: fumo este cigarro “porque gosto de levar vantagem em tudo”, cunhou-se
a expressão Lei de Gerson que se
traduz em nossa prática cultural de querer se dar bem em qualquer circunstância,
legal ou ilegalmente.
É uma prática/praga arraigada,
quase inata. O brasileiro é mesmo grande adepto da Lei em questão, mesmo não se
dando conta, ou dando mesmo, de quanto a coloca em prática nas mínimas coisas
da vida cotidiana.
Alguns nomeiam a Lei de Gerson,
quase carinhosamente, de “jeitinho brasileiro”. Em nossa sociedade, alardeia-se
aos quatro cantos como somos bons em soluções criativas, adaptáveis, mesmo que
não sejam nada ortodoxas em seus meios.
Nem precisa fazer muita força
para observar a presença desse nosso traço “cultural”. Basta olhar em volta.
Fila é significativa neste sentido. Ok. Ninguém gosta de esperar por um
serviço. No entanto, isso não nos dá o direito de querer furá-la para levar vantagem
sobre os demais. Há poucos dias assistimos à aberração de um doutor/professor
que chegou atrasado para a sessão do cinema em Brasília e, não se contentando
em ter que esperar como os demais, destrinchou uma verdadeira verborragia
racista sobre a atendente, a qual, corajosamente, o colocou literalmente em seu devido lugar: na ordem de chegada e na ordem da cidadania.
O Trânsito também é bastante
ilustrativo a respeito da lei de Gerson. Estaciona-se em filas duplas, vagas de
deficiente, avança-se sinal, na maioria das vezes em nome da pressa. Sempre
ela. A mesma desculpa esfarrapada de sempre.
E o que dizer da prática de se
apropriar de algo que não nos pertence, sobretudo no ambiente de trabalho?
Quantas vezes ouvimos o sujeito dizer que estava “sobrando” este ou aquele
objeto; daí levar pra casa não tem problema....não faz falta... Isso sem falar
no hábito de se copiar de tudo: CD, livros, ideias.... a pirataria é geral.
Se fôssemos taxar quantas pessoas
estudam neste país pelos índices das famosas carteirinhas de estudante (que
permitem pagar meia entrada em espetáculos e eventos esportivos) estaríamos em
grande vantagem mundial nos índices de escolaridade.
Mas que nada, corrupto mesmo é só
o político. Falamos, criticamos e execramos a prática de nossos nobres
representantes, muitas vezes sem nos darmos conta de que em nosso cotidiano a
corrupção também está presente; e nas pequenas grandes coisas...
O mais intrigante nesta pequena historinha,
porém, é que, caso queiramos agir corretamente dentro das normas
pré-estabelecidas, somos taxados de “otários”. Vivemos, assim, uma inversão de
valores: o certo virou errado e vice-versa. Temo ao pensar que ao agirmos
pautados pela ética, tenhamos que nos esconder para não virarmos chacota no
grupo social em que estamos inseridos. Triste realidade. Muito embora, uma
grande verdade!




