Rede Social

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

De volta ao mundo, de volta à vida.


Faltando poucos minutos para a meia noite do dia 12/10/10 começava o resgate histórico dos mineiros soterrados 700 metros abaixo do solo desde o último cinco de agosto, no maior acidente da espécie até então, ocorrido na mina San José, situada no deserto de Atacama no Chile.

Boa parte do mundo estava ligada nas imagens daquele momento, na expectativa para o sucesso do desfecho desse acidente que deixou 33 mineiros presos por 68 dias a fio. Muito se especulava durante esse tempo sobre como seria o resgate, se os mineiros aguentariam esperar por ele, como sairiam, se algo poderia dar errado, dentre tantas outras aflições inerentes ao fato. As famílias aguardavam e acompanhavam no acampamento montado no local, denominado ‘esperança’.


Içados e trazidos de volta à tona numa cápsula simbolicamente intitulada Fênix (na mitologia grega, um pássaro que renascia das próprias cinzas), os mineiros saídos da mina comoveram o mundo em cenas tocantes representativas de uma mescla de fé, amor à pátria e força familiar.

Quando já por volta dos 10 minutos do dia 13/10/10, Florêncio Ávalos, o primeiro deles, surgiu daquele duto, causou em todos nós, espectadores, uma emoção ímpar e indescritível de renovação e renascimento, permeada pela sensação de que o dom da vida é o maior dos bens dos quais podemos desfrutar.

Não bastasse a imagem em si de alguém que volta das profundezas do obscuro, a cena também emocionou profundamente pela reação do filho de Ávalos, o garoto Byron, que chorava copiosamente e só queria correr de encontro aos braços do pai. Foi humanamente impossível não se comover diante das telas.


O considerado mais bem humorado deles, ao sair, correu em direção ao público fazendo graça e bradando Chi Chi Chi lê lê lê  num canto eufórico. Foi lindo. Contagiante. Instigante também foi assistir ao bandeiraço realizado pelos chilenos. A comemoração digna de cidadãos solidários. Se fosse por aqui, algum desavisado ao ver as cenas acreditaria estarmos em plena copa do mundo. Por óbvio, é quando nossa pátria de chuteiras se mobiliza em torno de algo parecido com sentimento de pertencimento.
  
O esporte, conforme noticiado, foi uma espécie de terapia de sobrevivência para aqueles homens confinados à mercê de Persephone. Lá nos mais escuros cantos desse inferno subterrâneo, toda e qualquer estratégia tornar-se-ia fundamental para continuarem apostando na força da vida. Foi assim que assistimos o renascimento das cinzas, qual fênix, desses 33 homens.


Poderíamos pensar, a partir do fato ocorrido, nas condições de trabalho precárias, inseguras e adversas que permeiam a atividade dos mineiros não somente no Chile, mas em vários outros países, inclusive por aqui. Poucos dias depois, acontecia algo semelhante no Equador.

Mas, para além da tragicidade, o que vale ressaltar, porém, é a gana de vida. Essa força que nos impulsiona à sobrevivência haja o que houver. Diz o senso comum que muitas pessoas só passam a viver de fato e a valorizar a vida quando enfrentam situações limites ou fazem um pequeno passeio pelo vale da sombra da morte. Não quero pagar pra ver. Mas estou convicta de que a vida é sim um dom. Poder acordar toda manhã e perceber que estamos RES PIRANDO já é por si só, algo a ser comemorado. Afinal, quantos amanhecem, mas não completam o dia.

Lembrando os poetas compositores já falecidos:

é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há...”

“Eu sei que a vida podia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita!”.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Eleições 2010: a nova Marcha da família com Deus pela liberdade, agora com mouse.


De 1964 a 2010 passaram-se 46 anos. Quanta mudança de lá para cá: comportamental, social, tecnológica, enfim. É difícil pensar a vida hoje sem celular, computador, banda larga, controle remoto etc e tal. A mulher ganhou de vez o mercado de trabalho e hoje cada vez mais ocupa postos de alto comando nas empresas brasileiras e mundiais, fato pouco provável há cinquenta anos. O ganhador do prêmio Nobel de medicina deste ano é Robert G. Edwards, pelo desenvolvimento da Fertilização 'in vitro'.

A despeito das significativas mudanças e do progresso eminente, há coisas, porém, que dificilmente mudam. Tal é o caso do conservadorismo de parte da sociedade brasileira, a qual, ora dá sinais de avanço, para em seguida deixar evidente todo seu moralismo introjetado, muitas vezes travestido de hipocrisia.

Em 1964, a marcha da família com Deus pela liberdade conclamada pela Igreja, por algumas entidades tais como a União cívica feminina; Camde (campanha da mulher pela democracia) e alavancada pelo deputado Antônio Bueno com apoio do governador de SP, Ademar de Barros, contou com a participação de cerca de trezentas mil pessoas.


O objetivo último era a derrubada do então presidente João Goulart (Jango), por suas supostas ligações com o comunismo. As manchetes dos jornais da grande imprensa insistiam no fato de que a sociedade clamava pela intervenção dos militares na substituição do governante. Nas páginas iniciais do jornal ‘O globo’ de 19 de março de 64, noticiava-se: “senhoras do Jardim Botânico reclamam...militares, o que vocês estão esperando, que o Stalin venha sentar-se em Brasília?”

Deu no que deu. Sabemos que os governos militares, travestidos de guardiões dos interesses da sociedade brasileira, destituíram o presidente da República, afastando, assim, o suposto ‘perigo vermelho ameaçador’, e, apesar do alardeado caráter provisório do ato, lá permaneceram por longos 20 anos de nossa História política Republicana, parte significativa dos quais, é bom lembrar, de suspensão das garantias constitucionais do cidadão brasileiro.


Assim, quase 50 anos depois, a marcha da família com Deus está de volta. Agora não mais para derrubar presidente e sim para eleger o seu. Numa acusação alardeada pros quatro cantos de que a candidata Dilma Roussef seria favorável ao aborto, vestindo-a, numa espécie de manto de Herodes da modernidade, a marcha dessa vez veio com mouse. O último mês foi marcado por uma enxurrada de e-mails e notícias nas redes sociais que denotam à candidata citada o estigma de matadora de criancinhas, parafraseando o que disse a pretensa primeira dama, Mônica Serra.

Hipocrisias à parte, o fato é que esse tipo de sensacionalismo ainda mexe com o imaginário social brasileiro. A defesa da moral e dos bons costumes tão decantada na década de 60 está mais presente que nunca. A Igreja, novamente, deu sua contribuição para despertar os fantasmas. Parte pequena dela, a bem da verdade. Porém, barulhenta e determinada. E a grande imprensa, como sempre, também vem dando o seu quinhão de contribuição para reforçar os estigmas. Ela também tem candidato próprio.


Entretanto, assim como no passado, o sucesso da marcha e seus novos velhos articuladores têm obtido êxito porque continuam explorando características do povo brasileiro que a modernidade não conseguiu extirpar: o conservadorismo e o moralismo latentes. Nos anos 60 éramos cerca de 70 milhões de brasileiros. Hoje, estamos na casa dos quase 200 milhões. Mas a marcha empunhada de mouse tem atualmente acesso maior às pessoas, haja vista que o Brasil está entre os países que mais acessam a rede mundial de computadores.

Resta-nos acreditar em algumas coisas. Primeiro, que a grande massa eleitoral não se deixará iludir por conspirações tramadas de última hora nos bastidores eleitoreiros. Segundo, a realidade deverá falar mais alto do que querem urdir os articuladores da marcha de plantão, até porque, apesar dos avanços tecnológicos, 25% dos brasileiros têm acesso à informática.

Dos males, o menor. Pelo menos, não se cogita que os militares venham chamar pra si novamente a responsabilidade de intervenção nos rumos políticos do país. Também se espera que possamos continuar avançando rumo à cidadania plena. Retrocessos, creiamos, não mais terão espaço em nossa conjuntura histórica. Oxalá! Assim seja!

E que Deus nos ajude e ilumine para que definitivamente crianças não morram mais por aqui: por inanição, por maus tratos, por falta de atendimento médico, pelos frutos da exclusão, pela hipocrisia da sociedade e pelo descaso dos próximos governantes do país. Amém!


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Educador ou professor: a escolha é nossa!


Ah....a sala de aula....

Escrevo por alguns motivos. Primeiro porque quero render homenagens a todos nós, profissionais da Educação do Brasil. Nem sempre tarefa fácil. A bem da verdade, quase nunca. Mas somos insistentes. Muitos de nós, utópicos....

Vivemos num país em que educação nunca foi prioridade governamental. Por óbvio, não creio que seja desejável uma nação de 200 milhões de cérebros pensantes, conscientes e exigentes. Conscientes de deveres, mas também de direitos. Pessoas que não se deixariam ludibriar facilmente. Não. Definitivamente não seria interessante...

Conforme frase do nobel de literatura deste ano, Mário Vargas Llosa, “um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias”.


Mesmo assim, os educadores acreditam que isso seja possível. Não falo de professores, para os quais a sala de aula representa ensinar e meramente ministrar conteúdos e cumprir com suas tarefas profissionais. Isso é obrigação de quem optou pela carreira. Falo é de algo mais. Falo de ser EDUCADOR.

Educador é aquele que vê na sala de aula a oportunidade de transformar a sociedade. É aquele que enxerga no aluno não uma caixa vazia apta a receber informações e as reproduzir. Mas é aquele que vê a pessoa do aluno em todas as suas dimensões; se envolve; se deixa contagiar pela oportunidade de contribuir para a construção de um mundo melhor. É aquele que semeia a liberdade...

Educador sabe que educar é muito mais do que informar. É a oportunidade de tentar formar um aluno cidadão. Pessoas engajadas com o mundo à sua volta e dispostas a intervir positivamente neste universo. É preparar humanistas. É talvez despertar esse instinto. Ouso dizer que educador tem em sua profissão, sua ideologia. É missão, é destinação, é dom!


Com este espírito, concluo. E minha homenagem vai também para meus amados alunos, ex-alunos e também os que ainda virão. E espero que sempre venham. São vocês, mesmo que não saibam, meus verdadeiros e grandes amigos. Por quê? Eu explico: são aqueles que me dão a oportunidade de fazer das coisas que mais gosto na vida: trocar ideias, compartilhar experiências e, sobretudo, aprender sempre. A sala de aula é minha grande terapia. Coisa de maluco? Que seja. É a mais pura verdade. É a minha verdade...


Agradeço a Deus pela oportunidade que me dá cotidianamente de estar na companhia de todos vocês. Também por isso, sou abençoada!

A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. PAULO FREIRE.

sábado, 2 de outubro de 2010

Ditadura militar: anos sombrios na História do Brasil

Por mais que muitos de nós consideremos meio óbvio, muita gente não tem conhecimento sobre a ditadura militar brasileira, período em que muitos direitos constitucionais foram suprimidos da vida dos cidadãos deste país.

Em nome de ‘salvar a democracia’, supostamente ameaçada pelo governo Jango, os militares deram um golpe e instauraram o governo ditatorial no Brasil. O que começaria em caráter provisório, como foi alardeado, duraria duas longas e arrastadas décadas de nossa História. Sem dúvida, muitos problemas sócio-culturais, políticos e econômicos foram o grande saldo que aqueles anos nos deixaram por herança...

Começava ali um período conturbado, que comprometeria não somente a cidadania, mas também nosso próprio crescimento, percepção e maturidade enquanto povo.

Passando por Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, naquilo que ficou conhecido como rodízio de generais, o país assistia a supressão dos principais direitos civis: ir e vir; liberdade de expressão e manifestação; inviolabilidade do lar, dentre outros tantos. Os direitos políticos também foram suspensos, haja vista que já nos primeiros momentos de 64, foi declarada a eleição indireta para presidente da República. E aquele era só o começo.


Entre censura, propaganda ufanista oficial, arrocho salarial, silêncio imposto à sociedade, alem do já citado assalto aos direitos e garantias constitucionais dos indivíduos, o que mais me choca, ainda hoje, é a institucionalização da tortura como forma de obter confissões dos chamados subversivos. Nos porões da ditadura foram freqüentes os “paus de arara”, “cadeira do dragão”, “choques elétricos” e outros vários para aquelas pessoas cujo crime principal era a luta pelo resgate à democracia no país.

TERRORISTAS. Assim eram rotulados pelo governo ditatorial aqueles que foram suficientemente corajosos para enfrentar as arbitrariedades dos militares de plantão. As opções para aqueles jovens não eram muitas, talvez, nem muito menos atrativas: ou o conformismo, muitas vezes traduzido em alienação; ou adesão ao movimento Hippie, através da máxima sexo, drogas e Rock and roll; ou a luta armada, opção de enfrentamento para aqueles que não conseguiram aceitar ou se adequar àquele contexto onde as urnas deram lugar às fardas e tanques.


 

Aderindo a essa última opção foi que muitos lutaram, sofreram, morreram ou simplesmente desapareceram do mapa. Dentre estudantes, artistas, intelectuais, jornalistas, professores, advogados, membros da igreja e categorias variadas, muitos deles, até hoje, quarenta anos depois, ninguém sabe, ninguém viu. São muitos os considerados desaparecidos políticos. Na sociedade ocidental cristã, temos o ritual de enterrar nossos mortos. Muitas famílias daquelas pessoas, porém, até hoje esperam para tornar esse direito um fato. Imagino que se trata de um espectro de difícil convivência...





Curioso é que ainda tem gente por aí dizendo que tem saudade da ditadura. São muitos os saudosos dessa época. Dizem que eram bons tempos de prosperidade. A era do milagre econômico. Mesmo que hoje saibamos que o santo tinha pés de barro. Os índices positivos eram forjados, o arrocho salarial bastante real e o saldo para a década de 80 foi de intenso contexto de recessão e inflação. No frigir dos ovos, a ditadura só fez alargar o fosso existente entre ricos e pobres no Brasil.

 

Os adeptos dessa convicção também alardeiam que na época não existia tanta violência como a de hoje. Com certeza não. O que dizer de um Estado arbitrário, truculento, matador, torturador e silenciador?

 

Para aqueles, vítimas do Estado de outrora, só tenho a render as minhas homenagens. Talvez contribuindo para não deixar cair no esquecimento tudo aquilo que viveram. Preservar a memória nacional, acredito, é contribuir para a construção da cidadania plena que almejamos. Tenho certeza: ela ainda é possível!

 

E para um ex-torturado que entrevistei, o qual nunca permitiu que eu citasse seu nome, como apenas um, dos inúmeros danos psicológicos herdados, deixo algumas linhas escritas ao vento, fruto da admiração que ele a mim despertou:

 

Li em algum lugar que a tortura mata o homem no homem.

 Teus olhos, tua emoção e tua sensibilidade, porém,

fizeram-me crer que felizmente nem todos os homens morreram dentro de si....




terça-feira, 28 de setembro de 2010

O descaso com o Legislativo e o predomínio do Poder Executivo no Brasil

Estamos a poucos dias do pleito de outubro. Mais uma vez assistimos debates e embates calorosos (a bem da verdade, nem de longe como já foi um dia) sobre o (a) futuro (a) presidente do Brasil. É na roda de amigos, conversa de bares, entrevistas com especialistas no assunto e obviamente nas chamadas redes sociais da internet. A propósito, foi-se a época dos chamados ‘santinhos’, aqueles velhos panfletos que quase não recebemos mais por aí. Candidato moderno tem facebook, orkut, blog e twitter para pedir voto de modo instantâneo.

A questão que a muitos intriga, porém,  é não haver a mesma postura com relação ao Poder Legislativo. Também serão eleitos, a despeito de passar batido para muitos brasileiros ainda, deputados federais e senadores, isso sem falar nas cadeiras que serão ocupadas no Legislativo estadual. Noticiaram essa semana que parte significativa da massa de eleitores ainda não sabe quem irá representá-la no Congresso Nacional.


Para entender um pouco essa questão, é importante que se faça uma visita ao nosso passado republicano. Getúlio Vargas, o primeiro presidente que marcara o imaginário popular, entrou para a história com o pseudônimo de “pai dos pobres”, haja vista a legislação trabalhista criada por ele desde os primeiros anos da década de 30, que contemplava o trabalhador com salário-mínimo, férias, folga e redução da jornada de trabalho para 8h diárias. Para um trabalhador que até então estava submetido aos interesses única e exclusivamente do capital, e de repente viu o Estado legislando em seu favor, é indiscutível a importância atribuída ao presidente em questão.


Com muita propriedade, o historiador José Murilo de Carvalho explica esse fenômeno intitulando-o Estadania. Esse conceito diz respeito ao fato da sociedade esperar que o Estado resolva os seus problemas e crie para ela novos direitos, sem que necessariamente ela precise se mobilizar, articular e lutar para consegui-los. E o conceito correlato à Estadania é o chamado messianismo político. Passamos a vida esperando pelo “salvador da pátria”, geralmente, aquele presidenciável que virá nos salvar e redimir de nossos principais problemas sociais.

A consequência mais direta dos fenômenos descritos, os quais vislumbram o Estado como um todo poderoso, é a desvalorização do Poder Legislativo. Não temos tradição de prestigiar as casas onde as leis são elaboradas, seja no âmbito municipal, estadual ou federal. Tanto é assim que dificilmente a sociedade se manifestou ao longo da História nos momentos em que houve o fechamento do Congresso Nacional. Por conseguinte, dificilmente as pessoas têm na memória os nomes dos deputados e vereadores que escolheram nas últimas eleições. Trata-se de um aspecto cultural.

E essa é exatamente a questão que deveria nos preocupar. Quanto aos presidenciáveis e pretensos governadores fica mais fácil a tomada de decisão. Acabamos por saber quem é quem, seus interesses e ideologias e a que lugar social cada um está vinculado. Já para a representação legislativa, o buraco é mais embaixo. Temos uma variedade de aberrações para tudo quanto é gosto. Desde Tiririca com seu bordão ‘pior que está não fica’, passando pelas mulheres sacolão, ops, frutas a escolher, até os Ronaldos Ésper da vida, vamos traçando um perfil do que será a Câmara Federal em 2011. A confirmar o prognóstico das pesquisas eleitorais, teremos uma das piores representações das últimas décadas. Aqui em Minas também temos nossos interessantes jargões: “meu federal é Rasgado”; “o importante não é saber falar, é saber fazer” e um muito sugestivo para a cidadania brasileira e para a sensação que teremos frente ao resultado das urnas: “para federal, vote em Reginaldo TRISTEZA”.


Mas bola pra frente. E por falar em bola, vem por aí os jogos olímpicos e a Copa do mundo no Brasil. E tem gente que ainda acha que “pão e circo” é uma expressão restrita ao Império Romano das antigas....



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Respeito às diferenças: tolerando a intolerância

Em abril deste ano, a população mundial estava na casa dos 6,8 bilhões de pessoas. Se essa homérica cifra representasse indivíduos que pensassem todos iguais, que mundinho mais insuportável seria esse para se viver. Cada um de nós tem pensamentos, razões, ideologias, sentimentos variados e distintos. Que bom!


O difícil para muita gente, porém, é conviver com tanta divergência. É ter que tolerar o diferente.

Defendo a ideia de que todas as guerras são frutos de intolerâncias mil. Já mataram por conflitos étnico-raciais; por riquezas que uns detém, outros não; pelo petróleo que o outro tem e aquele gostaria de ter; teve o capitalismo disputando o mundo com o socialismo; e matou-se muito, inclusive, em nome de Deus (essa, para mim, a maior das incoerências) e por séculos a fio: desde a Idade Média até ações terroristas do IRA no século XX.


Convenhamos: nem sempre é tarefa fácil a convivência com pessoas que se mostram tão diferentes de nós. Às vezes, dependendo da divergência, beira mesmo a exaustão. Em português claro e objetivo, torna-se um porre! Entretanto, isso não nos dá o direito ao desrespeito. A bem da verdade e da equidade, nunca é demais lembrar um princípio constitucional assegurado no artigo quinto da CF, em seus incisos IV e IX, segundos os quais, resumidamente, somos livres para pensar, agir e manifestar.

Indubitavelmente, muito poucos conhecem as leis. Mas talvez um número muito menor de pessoas conheça o bom senso e o princípio básico de qualquer convivência: respeitar a opinião e posturas alheias, mesmo que nos possa soar verdadeiras aberrações.

Ouvi um comentário estupefato de um sujeito que se espantou ao ver dois técnicos de times adversários batendo papo num evento que premiava os melhores do futebol. Espantou-me o espanto. Por acaso eles deveriam se atracar? Há também aqueles que acreditam mesmo que adversários políticos são inimigos de morte. Bastava um olhar atento aos bastidores do higt society pra perceber os meandros da arte de fazer política.



Pensemos: visões de mundo diferentes e inimizade não são termos correlatos.

Essa correlação sim, é que deveria nos espantar. Mas claro que não, afinal, aquele que é diferente de mim em natureza, pensamento e opinião deve ser tratado com brutal agressividade: é o que diz e é como age a maioria daqueles, inclusive, que se dizem indignados com a intolerância alheia. Quanta incoerência! Osamas bin Laden tem aos montes por aí. Porém, disfarçados na pele das madres Teresas de Calcutá....






terça-feira, 21 de setembro de 2010

A TV forma, informa ou deforma?

Essa pergunta foi tema da redação de vestibular há alguns anos atrás. Não me recordo agora de qual instituição. Na época, nós, os professores, recebemos inúmeros comunicados acerca das aberrações que apareceram no texto sugerido pelos avaliadores. Soou tão cômica a questão, se não fosse trágica, que a partir de então, criou-se o rótulo de pérolas dos vestibulandos, vez por outra divulgados em vários canais de comunicação.


Curiosamente, a ignorância dos alunos, que muitas vezes reflete o baixo nível da própria Educação no país, virou motivo de chacotas variadas. Achamos graça da própria desgraça. Tá certo que não devemos perder a capacidade de sorrir diante das dificuldades. Não fosse essa nossa capacidade e jogo de cintura diante das adversidades, poderíamos ter sucumbido de vez perante as inúmeras mazelas sociais pelas quais nosso país sempre atravessou.

Mas de volta ao tema em si sugerido naquela redação, me pego a pensar se essa não deveria ser uma reflexão cotidiana de todos nós.

Dia desses, num debate promovido em sala de aula, onde estavam em pauta os percalços da cidadania no Brasil, um estudante bastante participativo teceu graves acusações contra o governo X. Mediante a minha pergunta sobre sua fundamentação e seus necessários embasamentos teóricos, a resposta certeira e imediata foi: “vi no Jornal Nacional”.


Tudo bem. Sabemos que a TV possui uma função pedagógica para milhões de brasileiros que nunca foram à escola. Mas também sabemos o tanto que essa questão é complicada, haja vista os interesses subjacentes às mídias em geral.

Até onde me lembro, das inúmeras teorias estudadas, o papel dos veículos de comunicação seria o de informar. Obviamente, não vou querer traçar aqui um tratado da imparcialidade. Não somos imparciais. Falamos e possuímos ideologias de acordo com o lugar social a que pertencemos. Poucos conseguem falar de um lugar que não é o seu. Entretanto, penso que uma mídia transparente e ética deve buscar chegar mais perto possível da equidade.

Mas o que assistimos cotidianamente é, na verdade, a formação, ao invés da informação. Formação de consciências inconscientes. Mais do que isso, acredito mesmo que o que tenho assistido e lido por aí tem mais a ver com a deformação. Distorcem fatos sem a menor condescendência e os apresentam como a verdade irrefutável dos fatos. E assim vamos bebendo dessas fontes e as absorvendo...


Deturpações à parte, sonho com um país de cidadãos pensantes e reflexivos. Que possamos todos adquirir filtro perante o que nos é transmitido. Quem sabe um dia?! Utopia? Pode ser. Mas endosso Paulo Freire: “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes”.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O presidente do Irã transformando a História em Estória...

Nos últimos dias, Ahmadinejad tem subido o tom no discurso anti-Israel. Que ele viva numa cultura que menospreza a outra, posso até entender. Que em seu país, mulheres sejam condenadas ao apedrejamento, também posso compreender, no entanto, sem aceitar. Que ele também pertença a um país que se negou a tornar-se signatário dos Direitos Humanos, é mais fácil ainda entender, haja vista que por aqui mesmo, em nosso país, tem gente que insiste em dizer que defender direito humano é defender bandido.

O que é difícil aceitar, porém, é a postura radical e alienada de alguém que queira negar a História e os fatos que lhe são inerentes. Santa ignorância!


Eu ainda era estudante da graduação na década de 90 quando foi lançado o filme “A lista de Schindler”. Produção hollywoodiana de Steven Spielberg, foi um sucesso de bilheteria em vários países. O Brasil e o mundo voltavam a pensar sobre o holocausto promovido pelo nazismo e o massacre de cerca de seis milhões de judeus sob o comando hitlerista, que pregava a superioridade da raça ariana e orgulhava-se de ostentar uma postura anti-semita.

Na época do lançamento do longa, adquiri interesse especial pelo tema. Queria entender porque um país, ao que parecia, em grande e maior parte, apoiava as sandices de seu aloprado fuher. Percebi através de intensas pesquisas que não foi o nazismo de Hitler que começou a perseguição à raça judaica. Desde tempos mais remotos, em muita coisa ruim que acontecia pelo mundo, a culpabilidade era atribuída aos judeus. Foram responsabilizados até pela peste negra, uma espécie de peste bubônica que dizimou dois terços da população europeia na Idade Média.

O nazismo, portanto, se aproveitou de um imaginário europeu pré-existente anti-semita. A bem da verdade, o levou aos extremos, promovendo com requintes de barbárie não somente a matança nas câmaras de gás, mas ainda, e antes, utilizando-se das cobaias judaicas em nome de experiências científicas. Rasgavam-se membros dos judeus para ver o funcionamento da máquina humana in loco. Quantas grávidas daquela raça tiveram suas vísceras expostas para visualização genética acerca do processo de gestação. Se é que eram consideradas humanas as suas crias.


Com o discurso de que judeus se equivaliam a ratos, insetos variados, animais perigosos e, por conseguinte, necessária a sua eliminação, Goebbels, o ministro da propaganda do terceiro reich montou a máquina da divulgação anti-semita, ao que parece, conseguindo fazer uma espécie de lavagem cerebral nos adeptos e fieis seguidores de Adolf Hitler.

Parafraseando Nelson Rodrigues, sabemos que “toda unanimidade é burra”. Assim, mesmo naquele contexto, é preciso dizer, não foram todos os alemães que compraram as ideias consolidadas no Mein Kampf, livro escrito por Hitler e hereticamente pronunciado como bíblia nazista.  Houve aqueles que discordassem de tamanha ortodoxia. Não obstante, parte das vozes alemãs discordantes ficou silenciada para que também não virasse alvo de repressão e da fúria do comandante supremo da nação. Em muitos regimes autoritários e totalitários, esse silêncio forçado acaba tornando-se comum, por assim dizer.

No caso Ahmadinejad, o que gera indignação não é somente a sua retórica de que o drama judaico seja mito e o conseqüente desrespeito às vítimas do genocídio e seus familiares. A questão mais incômoda é a negação da própria História em si. A continuar assim, daqui a um tempo, vozes também por aqui irão dizer que a ditadura militar não existiu no Brasil e que a prática de tortura é fato inventado pela cabeça doentia dos terroristas que quiseram destruir o Brasil. Afinal, saudosistas do regime militar tem aos montes por aí...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Irmãos de alma: a importância dos amigos

“Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz”. (Machado de Assis). Peço perdão, porém, ao gênio da literatura brasileira porque quero, sim, alardeá-la.

Especificamente hoje, em função do aniversário de uma amiga querida: a Liliana.


Li em algum lugar que “só os solitários conhecem a alegria da amizade. Outros têm suas famílias, mas só para um solitário e um exilado os amigos são tudo”. Nem sei se as coisas funcionam assim. Mas essa frase bateu fundo em mim: seria eu uma pessoa solitária a ponto de ser alegre por ter amigos? Talvez. Mas ser solitária não significa ser sozinha. São dimensões diferentes.

Sou nascida de um casal que, ao que parece, optou por não ter mais filhos. E na condição de filha única, dei-me o direito de escolher alguns amigos e elegê-los irmãos de alma.

Lá pelos idos do fatídico ano de 2008 quando a tragédia se abateu sobre a minha vida (e aqui não quero tocar nas feridas), nunca dei tanta importância aos significados mais amplos de poder contar com os amigos. Até então, amizade para mim, significava companhia para festas, viagens, bar e violão, confidências. Não que isso tudo não seja importante. É também! Mas um sentimento de afeto e lealdade que une duas pessoas ou mais, não se restringe apenas a momentos de descontração e diversão.

Hoje entendo que essa palavra vai muito, mas muito mais além. Tem a ver com altruísmo; se importar com o outro, é o desejo de servir e a disponibilidade para ajudar quando se fizer necessário. Tem a ver com o conforto que se sente ao saber que a pessoa estará ali, mesmo que esse ali possa ser a milhares de quilômetros de distância. E muitos estão distantes. Não importa. Importa mesmo é a presença na ausência. É estar por perto, mesmo com a distância física.

Amizade significa o desejo de que o outro esteja bem. É compartilhar felicidade. É querer ver o sorriso estampado no rosto do outro. Ver suas realizações pessoais e se alegrar com elas. Em situações de vida adversas, se compadecer de seus males também faz parte. É inerente a este sentimento que, quando verdadeiro, ecoa na eternidade.

Quisera eu ter aos montes desses em minha volta. Tudo bem; ta tudo certo. Contento-me com os poucos, porém indispensáveis, nessa minha jornada de vida.

No meu dicionário, cravei o significado da palavra amizade: nobreza de almas irmãs.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A mulher aqui e agora: o que fizeram/fazemos de nós

Noticiaram outro dia que as mulheres começam a fumar mais cedo que os homens. Naturalmente, as consequências deste hábito não são positivas: já o sabemos. Mas também não acompanhava a notícia nenhuma espécie de explicação para a estatística. Fato é que tem sempre alguém conjecturando sobre as prováveis relações de causalidade e consequências.

Entretanto, a leitura desta reportagem levou-me à reflexão acerca da condição feminina na sociedade em que estamos inseridas. Vivemos inúmeros papeis: esposa/ mãe/ cuidadora/ tutora. Na cultura ocidental cristã, coube à mulher o exercício destas funções. Historicamente construídas, muitas de nós as compreenderam e as assimilaram – algumas com esforço e dores maiores que outras – e entenderam que assim as coisas devem funcionar.

A vida moderna, porém, trouxe novos papeis em seu bojo, dentre os quais, o de provedora. Um, a cada três lares no Brasil, tem a mulher como a principal responsável pelo sustento familiar. O resultado, por conseguinte, foi o acúmulo de tarefas em torno da figura feminina. Além de cuidar da casa, filhos, parceiros, pais, mães e tudo que possa vir neste kit tamanho gg, ingressamos no mercado de trabalho e ganhamos, em decorrência, jornadas duplas e triplas de funções, propiciadoras do aumento dos níveis de intenso stress


Acrescente-se a isso o fato de que precisamos estar bonitas, bem tratadas e cuidadas para minimamente manter a auto-estima em níveis razoáveis e não deixar a peteca cair. Afinal, a não satisfação com a aparência pessoal, neste denso contexto, só contribui para elevar o stress já citado.

São tantos roteiros a seguir.... Haja script!

Não bastassem tais questões, ainda assistimos cotidianamente, nos últimos tempos, a escalada rumo ao aumento da violência doméstica. Num histórico de submissão e humilhação, em pleno 2010, vislumbramos a uma espécie de retrocesso, com o crescimento do número de mulheres agredidas, violentadas e assassinadas por seus companheiros, na maior parte dos casos. E isso, em plena era da Lei Maria da Penha.

Eis, resumidamente, a nossa transcendente condição de mulher nos moldes atuais. Há opções, evidentemente. Podemos não exercer nenhum papel que historicamente nos foi atribuído. Podemos também não execrar esta multifuncionalidade adquirida. Ao contrário, há quem goste e a exerça com profundo brilhantismo.

Quanto a mim, quero ser livre! Quero eu mesma escolher de fato os papeis nos quais eu quero atuar. Como não viemos ao mundo com manual de instrução acoplado, quero eu mesma acionar os mecanismos de funcionamento da máquina da minha vida. Sem programação prévia de terceiros. Tenho certeza: quando Deus me desenhou, projetou alguém para ser feliz em plenitude. Não estou aqui de bobeira ou de passagem. Liberdade é o instinto que me guia.

Resta-me a dúvida sobre os amplos significados de ser free. Uma certeza: minha alma canta. Seu tom é reflexo das notas musicais de minha mente. Esta, ao menos por enquanto, não funciona sob crivo e controle de ninguém. Não ao que eu saiba....

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Rugas: tê-las ou não? Eis a aflição.

Que todos sabem que os brasileiros cultuam o corpo, não é novidade para ninguém. As praias do país parecem vitrines, onde as mulheres, principalmente, parecem sempre estar em sintonia com a ideia de que serão desejadas e desejáveis se corresponderem à expectativa do corpão sarado e enxuto. Assim, é que vivemos às voltas com dietas mirabolantes, brigas intermináveis com a balança, além da convivência com o incômodo sentimento de que possamos estar fora do “padrão ideal”.

E o que dizer do rosto então? Também não é novidade dizer que uma grande parte das pessoas se preocupa em evitar as temidas, macabras e monstruosas rugas. Cotidianamente somos bombardeados pela indústria de cosméticos (em franco processo de ascensão no Brasil) com lançamentos de creminhos, pomadas, óleos e afins que prometem a fórmula mágica da eterna juventude.

Dia desses, fui postar uma foto num site qualquer e ouvi de pessoa próxima: “não gosto desta, aparece uma ruga abaixo de seu olho. Você não sabe escolher suas melhores fotos”. Embora eu tenha fincado pé e não dado ouvidos ao que pareceu-me misto de afronta com futilidade, por instantes tive a sensação de cometer heresia. Talvez eu devesse escolher alguma de dez anos atrás. Quem sabe mais. Afinal, pra que ser fiel à realidade? Mais vale ser fiel à estética e apresentar-me com a imagem de alguém que já fui um dia.


Vivemos num país em que envelhecer soa quase aberração. Nesta campanha eleitoral (aqui citada para além de finalidades eleitoreiras), tenho lido e escutado muitos comentários sobre a idade avançada do pretenso candidato à presidência da República, Plínio Arruda, já na casa dos oitenta anos. Não se cogita a suposta coerência de suas ideias, plataformas, nem mesmo a experiência de sua farta trajetória política. Todas as abordagens sobre o cidadão em questão dizem respeito à sua idade avançada: “levantou do caixão para se candidatar”; “como quer ser presidente se vai morrer antes da eleição?”; “devia ser proibido velho se candidatar”.

Pois é. Velho não deveria se candidatar, não deveria trabalhar, não deveria pensar, não deveria nem mesmo viver. Esses são os significados mais amplos de viver numa cultura que não respeita a experiência trazida pela idade. Se pensarmos então que o avançar da cronologia traz consigo marcas indeléveis de expressão, talvez a opção seja fazer o possível para retroceder e diminuir a expectativa de vida para a casa dos quarenta anos, hoje, afrontosamente, na casa dos setenta. Por esse viés, fico pensando o que será do futuro, haja vista que a previsão para 2025 é de que o Brasil seja o sexto país do mundo com o maior número de pessoas idosas, segundo a OMS.

A despeito, porém, das previsões pessimistas, há sempre um lado bom para se apegar: será bastante profícua a carreira de cirurgiões plásticos. Talvez os profissionais dos mais necessários, a fim de evitar que quarenta milhões de enrugados se esbarrem por aí todos os dias. Não for assim, temos a opção mais óbvia para evitar a chegada das famigeradas companheiras da idade: morrer antes do tempo. Fatalismo à parte, espero que a ciência revele uma grande descoberta também neste futuro próximo: um botãozinho que ao ser acionado transforme a massa encefálica de fato em algo verdadeiramente pensante.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Redes sociais: enfiando o pé na jaca (ou a mão no mouse) de vez...

Fiquei sabendo que ao criar um blog, é preciso escrever sempre. Disseram-me: o blog requer constância. Por essa eu não esperava. Quer dizer que ao querer compartilhar pensamentos, ideias, frustrações, suspiros de alma, eu tenho que ter tempo estipulado?


Devo programar meu cérebro para funcionar/emitir comandos da escrita todos os dias, assim como o intestino, o cartão de ponto no trabalho e outras tarefas rotineiras e obrigatórias? É... Parece que sim. Isso que dá viver na modernidade.

Pensando cá com meus botões a respeito desta obrigação da constância, caso eu queira que as pessoas pelo menos possam ler o que escrevi, parei para refletir no que se tornou a vida pós-rede mundial de computadores.

Lembrei-me lá dos idos de 1998, 1999. Na época, embora um tanto atrasada em relação a muita gente, adquiri meu primeiro computador. Paguei em seis prestações, as quais correspondiam exatamente ao valor da bolsa de aperfeiçoamento que recebia da Universidade Federal. Quando entregaram em minha casa, a reação foi semelhante à que, imagino, tem um mendigo esfarrapado se alguém lhe oferecer casa, comida e roupa lavada. Nossa! Como fiquei feliz. O próximo passo era aprender mexer na geringonça que tinha em mãos.

De cara, quis saber o que a internet tinha para me oferecer. Acabei caindo num chat de bate-papo. Ali fiz vários amigos. Na primeira vez que marcamos de nos encontrar ao vivo e a cores (lembrando que quase ninguém tinha web cam), depois das descobertas “você é fulano, você é beltrano” e mais meia dúzia de palavras, todos, inclusive eu, se ocuparam em dar desculpas para ir embora: compromissos variados. Uma hora depois estávamos todos felizes batendo papo à frente do computador.

Naquela época eu nem imaginava o que estaria por vir. Vivemos às voltas com orkut, facebook, twitter, blogs, etc. E a gente sempre acha que não vai se deixar seduzir por tantos sites de relacionamentos. De repente a gente descobre que no orkut podemos localizar velhos amigos. O twitter nos coloca em contato direto com as ideias de quem se quer acompanhar: das mais fúteis celebridades às informações e notícias do país e do mundo. Do facebook, vi notícia dia desses que pode gerar oportunidades profissionais. E o blog, esse que acaba de se desvelar para mim? Não sei bem o que me trará. Talvez funcione como um diário, quem sabe. Posso escrever, dizer besteiras, extravasar inquietações. Um blá blá blá qualquer. Que seja!

Resta-me descobrir como farei com a tal periodicidade necessária. Não sou programável. Sou o caos. Sou altos e baixos. Sou tempestade e bonança. Aliás, nada é tão constante nesse mundo como a inconstância, disse J. Swift. Mas tudo bem. Pelo menos detenho a certeza de que pertenço à comunidade nacional que está entre as dez que mais acessam a internet no mundo: quanto glamour!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Serra abaixo, desespero acima.

Dia desses eu falava com meus alunos sobre o oportunismo político por ocasião do assassinato de João Pessoa lá pelos idos de 1930 no Brasil. O crime, ao que tudo indica, foi passional. Porém, a chapa oposicionista encabeçada por Vargas, tendo o paraibano como vice, havia sido derrotada. As eleições foram fraudulentas, é verdade. Algo muito comum na então República Velha brasileira. Mas não é que o assassinato do cabra acabou por levar Vargas ao poder? Sim. Munida do clima de “tá vendo? Quem quer ser bom para o país, acaba morto”, a Aliança Liberal que reunia os estados de MG, PB e RS viu no episódio a oportunidade de alçar vôo ao poder. Respaldada militarmente pelos tenentes, a Aliança destituiu Washington Luís, antes mesmo que Júlio Prestes, o presidente eleito por SP, tomasse posse.

Criar um clima favorável e aproveitar oportunidades para se promover no jogo político, talvez nem seja demérito, para quem pensa que uma oportunidade não pode ser perdida. No mínimo, é preciso conhecer os espectadores e saber se “comprarão a ideia”. Isso requer conhecimento prévio do público a quem se quer comover. Há que se pensar, por outro lado, na chamada Lei de Gerson que motiva as pessoas a levarem vantagem em tudo e seus amplos significados para a nossa cidadania.

Hoje fico pensando se tentar criar clima semelhante de comoção passou de fato pela cabeça do candidato à presidência, José Serra e sua equipe. Óbvio que quanto mais dúvidas se conseguir plantar sobre a candidatura adversária, melhor. Por outro lado, tendo a questionar se não há uma subestimação demasiada acerca do eleitorado do país. Claro: não podemos perder de vista parte significativa de uma massa de brasileiros que nem sempre tem filtro adequado para não sucumbir a farsas bem montadas. Hoje, inclusive, o IBGE divulgou que de cada cinco brasileiros, um é analfabeto funcional: aquele que tem quatro, cinco anos de escolaridade, sabe ler e escrever, muito embora não consiga interpretar.

Entretanto, o candidato José Serra, ao alardear pros quatro ventos que sua filha teve seus dados vazados pela Receita Federal e, por conseguinte, querer responsabilizar Dilma, Lula, PT e companhia, em última instância, é forçar um clima a seu favor que talvez não aconteça. A grande mídia bate muito mais nesse vazamento do que na época específica em que teria ocorrido: 2009. Mas mesmo com notas tão minúsculas sobre a data do fato, a mesma imprensa acaba divulgando que na época em questão não havia candidaturas oficiais.

Moral da História: pra se munir de oportunismo político é preciso muito mais que clima de vitimização. É preciso ter inteligência e serenidade suficientes para que a oportunidade de fato seja favorável e o tiro não saia pela culatra. Tais virtudes, do candidato em questão, parecem estar lado a lado com seus índices de intenção de voto para o pleito de três de outubro: em franco processo ladeira abaixo. Por que não dizer, Serra abaixo!