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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

De volta ao mundo, de volta à vida.


Faltando poucos minutos para a meia noite do dia 12/10/10 começava o resgate histórico dos mineiros soterrados 700 metros abaixo do solo desde o último cinco de agosto, no maior acidente da espécie até então, ocorrido na mina San José, situada no deserto de Atacama no Chile.

Boa parte do mundo estava ligada nas imagens daquele momento, na expectativa para o sucesso do desfecho desse acidente que deixou 33 mineiros presos por 68 dias a fio. Muito se especulava durante esse tempo sobre como seria o resgate, se os mineiros aguentariam esperar por ele, como sairiam, se algo poderia dar errado, dentre tantas outras aflições inerentes ao fato. As famílias aguardavam e acompanhavam no acampamento montado no local, denominado ‘esperança’.


Içados e trazidos de volta à tona numa cápsula simbolicamente intitulada Fênix (na mitologia grega, um pássaro que renascia das próprias cinzas), os mineiros saídos da mina comoveram o mundo em cenas tocantes representativas de uma mescla de fé, amor à pátria e força familiar.

Quando já por volta dos 10 minutos do dia 13/10/10, Florêncio Ávalos, o primeiro deles, surgiu daquele duto, causou em todos nós, espectadores, uma emoção ímpar e indescritível de renovação e renascimento, permeada pela sensação de que o dom da vida é o maior dos bens dos quais podemos desfrutar.

Não bastasse a imagem em si de alguém que volta das profundezas do obscuro, a cena também emocionou profundamente pela reação do filho de Ávalos, o garoto Byron, que chorava copiosamente e só queria correr de encontro aos braços do pai. Foi humanamente impossível não se comover diante das telas.


O considerado mais bem humorado deles, ao sair, correu em direção ao público fazendo graça e bradando Chi Chi Chi lê lê lê  num canto eufórico. Foi lindo. Contagiante. Instigante também foi assistir ao bandeiraço realizado pelos chilenos. A comemoração digna de cidadãos solidários. Se fosse por aqui, algum desavisado ao ver as cenas acreditaria estarmos em plena copa do mundo. Por óbvio, é quando nossa pátria de chuteiras se mobiliza em torno de algo parecido com sentimento de pertencimento.
  
O esporte, conforme noticiado, foi uma espécie de terapia de sobrevivência para aqueles homens confinados à mercê de Persephone. Lá nos mais escuros cantos desse inferno subterrâneo, toda e qualquer estratégia tornar-se-ia fundamental para continuarem apostando na força da vida. Foi assim que assistimos o renascimento das cinzas, qual fênix, desses 33 homens.


Poderíamos pensar, a partir do fato ocorrido, nas condições de trabalho precárias, inseguras e adversas que permeiam a atividade dos mineiros não somente no Chile, mas em vários outros países, inclusive por aqui. Poucos dias depois, acontecia algo semelhante no Equador.

Mas, para além da tragicidade, o que vale ressaltar, porém, é a gana de vida. Essa força que nos impulsiona à sobrevivência haja o que houver. Diz o senso comum que muitas pessoas só passam a viver de fato e a valorizar a vida quando enfrentam situações limites ou fazem um pequeno passeio pelo vale da sombra da morte. Não quero pagar pra ver. Mas estou convicta de que a vida é sim um dom. Poder acordar toda manhã e perceber que estamos RES PIRANDO já é por si só, algo a ser comemorado. Afinal, quantos amanhecem, mas não completam o dia.

Lembrando os poetas compositores já falecidos:

é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há...”

“Eu sei que a vida podia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita!”.