Rede Social

quinta-feira, 24 de março de 2011

Cidadania: teoria versus prática. Uma breve abordagem sobre as escolas.


Está na Constituição Federal no artigo quinto: somos livres. Isso inclui pensamento, ação, manifestação, ir e vir e várias outras possibilidades. Graças a Deus por isso. Houve época em que o simples manifestar de ideias levava uns e outros pro desemprego, pra cadeia, pra Inquisição e até pra fogueira...

Voltaire, um grande nome do Iluminismo já apregoava com propriedade: “não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-la”.


Que bom. Quem pensa sabe que o direito de pensar pertence a todos e consequentemente, o pensar diferente do meu não é menos ou mais importante do que penso. Simplesmente é diferente.

E eu estava aqui justamente pensando na greve dos professores da rede particular de Belo Horizonte, em pleno vapor. Nossa categoria profissional, já o sabemos, é fragmentada e desunida. Infelizmente. Além de outros vários fatores, penso que o sucateamento de nossa profissão se deve também à falta de unidade nas ações e mobilizações da classe.

Mas também concordamos que os professores têm o direito de pensar, agir e aderir ou não ao movimento. É a liberdade citada acima. O que não dá para compactuar, porém, é com a hipocrisia, essa praga que se manifesta em vários aspectos e várias instâncias da convivência entre pessoas.

Existem aqueles profissionais que se posicionam, reclamam, fazem muito barulho, a la biscoito de polvilho, mas não querem se expor e botar a cara para bater. Na hora H desconversam, fingem que não é com eles e, a despeito da luta do colega, fazem a linha “eu fui praticamente obrigado(a)”. Tudo bem. Releva-se.


Mas a grande hipocrisia ou incoerência que mais me incomoda é a de algumas instituições de ensino. Está lá escrito para quem quiser ver em seus projetos político-pedagógicos e, em alguns casos alardeados na imprensa: “nosso compromisso é com a formação do aluno; é com a formação do CIDADÃO”.

Ora, se fizermos uma leitura ao pé da letra, entenderemos: escola é espaço de construção de cidadania.

Será?

Que espaço de cidadania é esse que se recusa a abrir oportunidade ao diálogo? Que cidadãos querem formar se seus professores são intimidados a não discutirem sobre seus direitos básicos? Pura hipocrisia!


Óbvio que não generalizo. Há instituições cujos líderes são os primeiros a chamarem para os debates. Que ouvem atentamente o que seus funcionários têm a dizer. Fico feliz quando penso que pertenço a algumas dessas. As respeito mais ainda por isso.

Mas há, por outro lado, aquelas que intimidam, ameaçam (velada ou escancaradamente) os seus respeitadíssimos educadores. Pura figura de retórica; balela; o famoso lero-lero. Alardeiam a importância da cidadania aos alunos, pais e responsáveis, mas que seus professores não se metam a ousarem-se cidadãos.

Citando Vitor Paro, em seu texto “Educação para a democracia”, a escola possui duas dimensões importantes e complementares. A individual e a social. A primeira, diz respeito ao fato de munir o aluno de capacidade de raciocínio próprio, levando-o à construção de conhecimento, dotando-o de habilidades e competências para seu viver bem. A segunda, a SOCIAL, nos ressalta a importância de preparar o aluno para viver em sociedade; torná-lo mais solidário, humanitário, em suma, um cidadão virtuoso. Aquele que cumpre seus deveres, mas exige a garantia de seus direitos. Que respeita o outro, as diferenças entre as pessoas e mais que isso, que aprende a conviver com elas.

Linda a teoria. Prática distante.

Se quisermos de fato contribuir para a construção de uma sociedade melhor, que possamos, antes de tudo, sermos o exemplo vivo disso. Sem hipocrisias...

E pensando aqui com meus botões em como eu gostaria que meus amados alunos sempre lembrassem de mim, se isto for possível, é que lutem sempre pelos seus ideais, por aquilo que acreditam. Que possam cumprir com seus deveres, mas que não deixem que seus direitos sejam suprimidos. Fidelidade às suas convicções e dignidade acima de tudo!


Um comentário:

  1. Resumiu muito bem a nossa discussão da penultima aula. Parabéns pelo blog professora.

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