Que todos sabem que os brasileiros cultuam o corpo, não é novidade para ninguém. As praias do país parecem vitrines, onde as mulheres, principalmente, parecem sempre estar em sintonia com a ideia de que serão desejadas e desejáveis se corresponderem à expectativa do corpão sarado e enxuto. Assim, é que vivemos às voltas com dietas mirabolantes, brigas intermináveis com a balança, além da convivência com o incômodo sentimento de que possamos estar fora do “padrão ideal”.
E o que dizer do rosto então? Também não é novidade dizer que uma grande parte das pessoas se preocupa em evitar as temidas, macabras e monstruosas rugas. Cotidianamente somos bombardeados pela indústria de cosméticos (em franco processo de ascensão no Brasil) com lançamentos de creminhos, pomadas, óleos e afins que prometem a fórmula mágica da eterna juventude.
Dia desses, fui postar uma foto num site qualquer e ouvi de pessoa próxima: “não gosto desta, aparece uma ruga abaixo de seu olho. Você não sabe escolher suas melhores fotos”. Embora eu tenha fincado pé e não dado ouvidos ao que pareceu-me misto de afronta com futilidade, por instantes tive a sensação de cometer heresia. Talvez eu devesse escolher alguma de dez anos atrás. Quem sabe mais. Afinal, pra que ser fiel à realidade? Mais vale ser fiel à estética e apresentar-me com a imagem de alguém que já fui um dia.
Vivemos num país em que envelhecer soa quase aberração. Nesta campanha eleitoral (aqui citada para além de finalidades eleitoreiras), tenho lido e escutado muitos comentários sobre a idade avançada do pretenso candidato à presidência da República, Plínio Arruda, já na casa dos oitenta anos. Não se cogita a suposta coerência de suas ideias, plataformas, nem mesmo a experiência de sua farta trajetória política. Todas as abordagens sobre o cidadão em questão dizem respeito à sua idade avançada: “levantou do caixão para se candidatar”; “como quer ser presidente se vai morrer antes da eleição?”; “devia ser proibido velho se candidatar”.
Pois é. Velho não deveria se candidatar, não deveria trabalhar, não deveria pensar, não deveria nem mesmo viver. Esses são os significados mais amplos de viver numa cultura que não respeita a experiência trazida pela idade. Se pensarmos então que o avançar da cronologia traz consigo marcas indeléveis de expressão, talvez a opção seja fazer o possível para retroceder e diminuir a expectativa de vida para a casa dos quarenta anos, hoje, afrontosamente, na casa dos setenta. Por esse viés, fico pensando o que será do futuro, haja vista que a previsão para 2025 é de que o Brasil seja o sexto país do mundo com o maior número de pessoas idosas, segundo a OMS.
A despeito, porém, das previsões pessimistas, há sempre um lado bom para se apegar: será bastante profícua a carreira de cirurgiões plásticos. Talvez os profissionais dos mais necessários, a fim de evitar que quarenta milhões de enrugados se esbarrem por aí todos os dias. Não for assim, temos a opção mais óbvia para evitar a chegada das famigeradas companheiras da idade: morrer antes do tempo. Fatalismo à parte, espero que a ciência revele uma grande descoberta também neste futuro próximo: um botãozinho que ao ser acionado transforme a massa encefálica de fato em algo verdadeiramente pensante.


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